Como “desconectar” o cérebro

Share on facebook
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on email
Share on telegram

Hora de dormir, finalmente. Depois de um dia cheio, nada melhor que deitar a cabeça no travesseiro e fazer um logout. “Mas será que eu paguei aquele boleto que venceu ontem?”, “putz, amanhã é dia de entregar relatório pro chefe!”. Pelo amor de Bill Gates, como é que desinstala esse software chamado cérebro?

A verdade é que nem o fundador da maior companhia de software do mundo tem a resposta. Mas é melhor a gente mesmo começar a procurá-la, antes que dê pane no sistema — ou Síndrome de Burnout, distúrbio psíquico de exaustão física e mental que já atinge mais de 30% dos brasileiros, segundo estimativa da International Stress Management Association (ISMA).

Como se não bastassem as neuras que a nossa cabeça cria toda hora, somos obrigados a lidar também com a enxurrada de informações da mídia e redes sociais e com a pressão da alta produtividade do mundo corporativo. Mesmo assim, tem quem acredite que é possível fazer a massa cinzenta operar no máximo de sua capacidade, e que isso só traz benefícios ao indivíduo.

A fabricante japonesa de eletroeletrônicos Panasonic já até desenvolveu fones de ouvido que limitam a visão periférica de quem deseja se concentrar 100% no trabalho. Além das “baias” (divisórias nos escritórios), agora temos também um tapa-olhos. Não fosse a falta das ferraduras, o estábulo humano estaria completo.

O Wear Space é ajustável de acordo com o nível de concentração desejada. Foto: Divulgação/Panasonic

Diante desse cenário contemporâneo de busca pela produtividade extrema e excelência cerebral, uma coisa não saiu da minha cabeça: Será que essa tendência é benéfica, ou pode gerar mais estresses e danos emocionais do que sucesso?

É difícil ter uma resposta categórica para a questão. Segundo o psiquiatra Cirilo Tissot, diretor técnico da Clínica Greenwood, o aspecto fundamental nessa equação é conhecer a nossa própria  limitação para mantermos a saúde do cérebro acima de tudo.

“Procurar o máximo de produtividade para si mesmo ou a pedido da empresa só é considerado prejudicial quando a pessoa, desconhecedora de seus limites, aceita função maior que suas habilidades ou não é treinada adequadamente para exercer a função designada”, detalha Tissot. “Se começar a romper com os limites de sono, físicos, mentais, a partir do momento que é exigido além daquilo que possamos fazer, o que vai acontecer é uma situação de estresse. Isso gera problemas sérios, físicos e mentais”.

O modelo ‘996’

Na última semana, o co-fundador da Alibaba e bilionário chinês, Jack Ma, deu declarações incisivas sobre o modelo de trabalho nas empresas chinesas. Segundo ele, o ideal é que os trabalhadores executem suas funções por 12 horas diárias, das 9 horas da manhã às 9 horas da noite, durante seis dias da semana, ou seja o modelo ‘996’.

Como bom ocidental, é normal encarar essa opinião como controversa, mas vale lembrar que muitos diretores executivos que inspiram as novas gerações declaram só dormir quatro horas diárias.

“Ter modelos é fundamental para que possamos criar uma identidade profissional e com ela identificar o que pode ou não nos satisfazer”, explica Cirilo. “Mas temos que perceber quais modelos se assemelham mais com nossas limitações e recursos, pois caso contrário, viveremos um mar de frustrações e a nossa autoestima cairá muito”.

Encontrando o ponto de equilíbrio

Trabalhamos em média oito horas por dia. Só que o cérebro adora fazer hora extra (e não remunerada, diga-se de passagem). Tudo bem que aquela ideia brilhante que esperamos o dia todo pode vir só no banho, às 11 da noite. Mas é fundamental se desligar do trabalho assim que chegar em casa e encontrar algo que realmente nos equilibre e conecte com a gente mesmo.

Sabe aquela falta de criatividade e motivação durante o expediente? A solução pode estar fora dele. Basta prestar mais atenção ao que funciona melhor para você. No meu caso, ouvir música nas horas vagas sempre me inspira e dá um ânimo.

“É necessário ter uma rotina de esporte, de lazer e bons relacionamentos familiares. A prática de meditação também é fundamental, pois não só estimula o autoconhecimento como também a dedicação de um tempo para si mesmo. Com isso, percebermos nossos recursos e fragilidades”, esclarece Tissot.

Os benefícios da meditação, inclusive, foram cientificamente comprovados pela Universidade de Yale, em 2013. Segundo os estudos, a prática combate o estresse e a insônia, além de diminuir o risco de infartos. Bastam alguns minutos no Headspace para sentir a diferença.

Mas se você ainda tem dificuldades de controlar o excesso de trabalho do seu cérebro, o melhor é começar lentamente com algumas dicas fáceis que podem ser feitas em casa ou no trabalho:

  • Ligue para alguém especial. Pode ser um amigo, familiar ou parceiro.
  • Saia para tomar um ar, nem que seja por cinco minutos.
  • Se concentre no momento presente e em tudo o que está ao seu redor.
  • Assista a um vídeo curto sobre algo que você goste.
  • Tire uma soneca de 15 a 30 minutos depois do almoço.

Ao mesmo tempo que a internet concentra uma infinidade de materiais e gurus pregando o excesso de produtividade, também é possível encontrar pessoas que pensam em diminuir o ritmo. Um exemplo é o youtuber Caio Braz traz uma reflexão bem interessante sobre o tema, relacionando-o à antiga monarquia e ao atual capitalismo. Olha só:

A mente humana tem potencial de máquina, é verdade. A diferença é que as panes são muito mais graves e a assistência técnica pode custar bem mais caro, quando não ocorre uma perda total. No Japão, já existe até um termo designado para a morte por excesso de trabalho: karoshi. Por melhor que seja o ordenado, não vale a pena correr esse risco.

Tags

sobre o autor