Capitão Fantástico na vida real

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Quando eu era pequena, adorava “brincar de floresta”. Criança de prédio, né? A área verde do condomínio era minha selva. Pegava alguns gravetos, fazia uma casa e uma fogueira imaginárias, saía para “caçar” e estava armada a aventura.

Vinte e poucos anos depois, eu continuo na selva. Mas essa não é de mentira, é de verdade. Não é tão verde, é mais cinza, de pedra. Aqui, a maioria das pessoas trabalha para viver. Ou seria vive para trabalhar?

No meio de uma semana cansativa, fiz uma pausa depois do expediente. Laptop: check. Fones de ouvido: check. Luz apagada: check. Dei play em Capitão Fantástico, drama americano de 2016, premiadíssimo nos festivais internacionais de cinema de Cannes, Roma, Seattle, e por aí vai. A indicação foi de uma querida amiga.

Primeiramente, como é que eu passei todo esse tempo sem esse filme? Ele já entrou para o conceituadíssimo “Top 3 Filmes Favoritos da Camila para se Desconectar”, e eu vou te contar o por quê (sem spoiler, prometo).

Resumo do filme

Divulgação: captainfantasticfilm.co.uk

Capitão Fantástico mostra as aventuras de pai e filhos. Juntos, eles encaram as alegrias e tristezas da vida. Mas não é qualquer família. Essa vive, literalmente, na selva. Ben cria seus seis filhos de nomes diferentões (Bo, Kielyr, Vespyr, Rellian, Zaja e Nai) em uma cabana numa floresta em Washington, como ele e a esposa, Leslie, sempre sonharam. Longe da cidade e de qualquer tipo de tecnologia, tudo o que eles têm é um trailer, instrumentos musicais e livros. São felizes até com um simples bolo de chocolate com chantilly.

A rotina na natureza não é fácil. Os meninos têm aulas com o pai, treinamento físico e meditação. Além da caça e afazeres domésticos, claro. Isso os torna cultos e fortes física e mentalmente. A parte mais tranquila do dia é quando eles se reúnem em volta da fogueira para discutir suas leituras e, às vezes, improvisar um show sob as estrelas.

O choque cultural fica por conta das experiências ocasionais de Ben e companhia na civilização, um universo paralelo, cheio de paradigmas e tabus. E foi aí que eu me identifiquei com o filme, a ponto de pensar “o que é que eu tô fazendo aqui nessa selva de pedra?”.

Até deu vontade de ir morar no meio do mato, mesmo sendo da geração Z (ou millennial). Mas viver onde, como e de quê? Com filhos ainda, acho que essa mudança se tornaria mais difícil.

Conexão excessiva

Os dados são alarmantes. Um levantamento mundial feito em 2018 pelo site de monitoramento digital Hootsuite, em conjunto com a agência de marketing digital We Are Social, indicou que o brasileiro adulto passa, em média, nove horas e 14 minutos por dia conectado. São 3.024 horas por ano na internet. Ficamos atrás apenas de Filipinas (nove horas e 24 minutos) e Tailândia (nove horas e 38 minutos).

Já um estudo do ano anterior, realizado pela desenvolvedora de softwares AVG Technologies, envolvendo famílias de todo o mundo, com crianças entre três e cinco anos de idade, apontou que 66% delas conseguia jogar jogos de computador, 47% delas usava o smartphone e apenas 14% era capaz de amarrar os sapatos sozinha.

Faz um logout

Acho que agora deu para entender melhor os motivos pelos quais o Ben e a Leslie optaram por uma educação nada convencional para os filhos. O estilo de vida não se tratava de uma mera filosofia. Os objetivos por trás dele eram desenvolver ao máximo a cognição, o raciocínio lógico, a capacidade de expressar sentimentos, o senso de cooperação, entre outras habilidades das crianças.

No entanto, a vida “natureba” do casal acabou gerando algumas faíscas entre a família. Esses conflitos são essenciais na trama e, novamente, me fizeram pensar se aquele sistema familiar valia a pena.

Na mesma semana, navegando pelo meu feed do Facebook, vi uma publicação de Nalu Pelo Mundo. A família do surfista Everaldo Pato Teixeira ficou famosa com um programa de TV homônimo viajando o mundo num barco com a filha Bela. Ela praticamente nasceu “na estrada”. Agora, já maiorzinha, pediu aos pais que passassem um ano sabático aqui no Brasil. Assim, ela poderia estudar numa só escola durante o período e se concentrar melhor em ser uma futura surfista profissional. E logo virá mais um “filhote” para se juntar à família de aventureiros.

Purificados! Terima Kasih (obrigada) Bali pelas good vibrations ?????? Tem stories sobre esse templo que fomos hoje! “Templo das águas sagradas” ….#tirtaempultemple #watertemple #bali #abençoada

Posted by Nalu Pelo Mundo on Thursday, September 6, 2018

Já que eu não podia viver numa cabana ou num barco com o pessoal lá de casa, decidi, pelo menos, tentar fazer um detox do celular. Talvez eu me desligasse um pouco do mundo online. Mas, pfff! Não durou nem perto das nove horas e 14 minutos do levantamento citado aqui em cima. A vontade de checar as redes sociais e o WhatsApp falaram mais alto.

Admiti o fracasso, mas cheguei à uma conclusão. É impossível ser tão desconectado ou tão tech savy e ser feliz ao mesmo tempo. O segredo da coisa é o equilíbrio. Mas a gente (leia-se: eu) desacredita e acaba tendo que assistir filme para se lembrar disso.

Ah, e fica a dica pra você também baixar o Moment no seu celular. O aplicativo indica quanto tempo passamos mexendo no bendito. De repente, você se espanta com o resultado e vai, sei lá… Assistir outro filme sobre vida offline, para refletir ainda mais.

E, se você ficou curioso para saber quais são os outros dois filmes do meu “conceituado” top 3 para se desconectar e apreciar o mundo fora das telas, aí vão eles, em ordem de classificação: Human (França, 2015), com depoimentos de 2.000 pessoas, de 60 países, e Na Natureza Selvagem (EUA, 2007), baseado em fatos reais.

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