Tingir presas de elefantes e chifres de rinocerontes funciona?

Share on facebook
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on email
Share on telegram

De tempos em tempos, se espalham nas redes sociais fotos de elefantes e rinocerontes com as presas e chifres rosas, como uma contra-medida para evitar a caça destes animais na África. Em 2016, nós contamos em um post que a tinta ficar aparente é só uma manipulação de imagem e que o único indício de uso da mistura cor de rosa são em rinocerontes, mas ficou no ar se isso de fato funciona.

Com a retomada do Mundo Logout, fui em busca de atualizações da Reserva Dinokeng, uma das reservas que aplicaram a mistura rosa dentro de chifres na época. Queria saber quais foram os resultados e se ainda aplicam a mistura por lá. Eu mandei e-mails, fui avisada de que minhas perguntas seriam encaminhadas, mas não recebi resposta.

Mas a questão fica: essa estratégia de tingir presas e chifres funciona? Segundo especialistas de instituições focadas na preservação destes animais, não.

Tinta rastreável

A mistura inserida é parecida com aquela tinta que usam em caixas eletrônicos que, quando são explodidos, marcam as células e fica mais fácil de identificar o dinheiro roubado. A questão é que, segundo a ONG Save the Rhinos, o chifre do rinoceronte não é poroso, então a mistura não adere e, por isso, acaba sendo facilmente removida. Além disso, um estudo publicado na revista Pachyderm em julho de 2014, constata que amostras retiradas de rinocerontes um mês após o tratamento não tinham nenhuma descoloração na epiderme papilar do chifre. A Save the Rhinos também informa que não há registros de que a tinta tenha sido detectada nos aeroportos.

Envenenamento do chifre

A ONG Rhino Rescue Project trabalha no desenvolvimento de toxinas que desvalorizem o chifre do rinoceronte e que possam preservar sua vida, como uma medida preventiva e temporária na luta contra a caça. Eles injetam a toxina com ectoparasiticidas e corante permanente em um processo de infusão de alta pressão e colocam uma válvula que evita vazamentos enquanto é absorvida pelo chifre, o que leva 10 dias.

Mas você deve estar se perguntando: mas se o chifre é liso, como a mistura adere? Para a Rhino Rescue, o chifre é formado por micro estruturas tubulares, como no diagrama abaixo, que faz parte de estudo de morfologia.

Formação do chifre de rinoceronte, segundo estudo de Tobin L., Lawrence M. Witmer e Ryan C. Ridgely, no Jornal de Morfologia, em 2006.

O tratamento deles é efetivo por cerca de 3 a 4 anos, até o crescimento completo de um chifre novo. A ingestão humana dos ectoparasiticidas não é letal, mas pode causar sintomas como náusea, vômitos e convulsões, dependendo da quantidade. Para os rinocerontes, o único risco é o que ocorre normalmente na imobilização.

Ações tradicionais

Todos os envolvidos com a modificação dos chifres concorda em uma coisa: essa é uma medida paliativa na luta contra a caça ilegal. A Save the Rhino atua em vários países para coibir tanto as mortes quanto a venda dos chifres.

Para a proteção dos animais, guardas florestais ficam literalmente na linha de fogo, arriscando suas vidas, além de cães farejadores que ajudam na fiscalização de cargas. A organização também tem programas que focam nos mercados consumidores, como a China e o Vietnã, com o objetivo de promover a educação ambiental e fazer pesquisas entre os consumidores.

As comunidades ao redor das reservas também contam com um trabalho de conscientização para preservarem os animais. Além disso, há um grupo de especialistas no continente que facilita a troca de informações.

E os elefantes?

Você já deve ter notado que os elefantes são animais gigantes, certo? Capturar e anestesiá-los é uma tarefa muito difícil e, muitas vezes, eles não acordam.

Além disso, toda essa interceptação é muito traumática para eles. Se for utilizado helicópteros, eles correm em pânico, porque associam o barulho com a morte de toda uma manada. Eles sofrem de Transtorno do estresse pós-traumático, assim como nós, humanos.

Existe também a questão logística que não é nada fácil. Depois de anestesiar um membro de uma manada, o resto dos integrantes podem ficar protegendo, o que dificulta a aproximação de uma equipe para fazer o tratamento.

Se fala muito em tingir o marfim dos elefantes mas, na prática, isso não foi implementado. Pudera: os riscos são grandes, os custos são altos e a duração é de apenas alguns meses.

Tags

sobre o autor