Os canudos não são o problema

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Desde o vídeo viral em que uma tartaruga era encontrada com um canudo dentro das narinas, os cilindros de plástico que usamos para beber suquinhos viraram verdadeiros vilões. Essa saga, que é praticamente uma batalha dos canudos, ganhou mais um capítulo na semana passada, quando o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, sancionou o projeto de lei que veta o fornecimento de canudinhos de plástico na cidade. A dúvida que fica é: estamos realmente vivendo um momento de responsabilidade ambiental verdadeiro ou uma onda de demagogia?

Essa dúvida surgiu outro dia, durante um happy hour num barzinho. Alguém da mesa esboçou pegar um canudo oferecido pela casa e isso foi o suficiente para um pito seguido de uma linda lição ambiental. Seria totalmente válida se não fosse por um detalhe, todos os copos eram de plástico e isso não havia causado nenhum desconforto. Parece que nosso desejo de lacrar em público é maior do que a preocupação com natureza.     

“Aquela discussão tão comum nas redes sociais parece que não chega até a praia”, avalia Thiago Augusto Nascimento, biólogo e assistente técnico da coordenação do Instituto Gremar. “As pessoas têm a percepção de que os animais marinhos estão morrendo por confundir o lixo com o alimento, mas é só você ir ao local onde ocorreu um show ou na praia para ver o quanto ainda deixam de sujeira por lá”.

Uma questão bem maior

O Instituto Gremar – Pesquisa, Educação e Gestão de Fauna é uma organização não governamental focada no monitoramento e educação ambiental, além de ser responsável pelo resgate e reabilitação de animais marinhos e costeiros. Ou seja, são eles que lidam diariamente com os resultados nocivos dos nossos hábitos de consumo. Segundo Thiago, 90% dos animais encontrados mortos, quando passam pela necrópsia, apresentam lixo no seu interior. Para ter uma pequena noção do quadro, são aproximadamente 2 mil animais encontrados por ano em uma faixa litorânea de apenas 65 quilômetros cobertos pelo projeto, de Bertioga a São Vicente. Só para lembrar, a costa brasileira tem mais de 7 mil quilômetros de extensão.

“O problema não é o lixo que as pessoas deixam na praia, ele também pode vir dos rios, resultado do descarte irregular e das moradias sem saneamento”, explica o biólogo. Para ele, é muito comum as pessoas culparem o poder público e reduzirem a sua responsabilidade. “Falam que a prefeitura que não põe cestos de lixo suficientes na praia ou eventos e acabam deixando o lixo entupir bueiros, chegar aos rios e parar no oceano.”

Apetrechos de pesca descartados incorretamente costumam ferir e matar os animais marinhos

Podemos fazer mais do que não usar canudos

É justamente nesse contexto alarmante que ocorrem as batalhas de canudos. Claro que a proibição é benéfica uma vez que os canudinhos são feitos de plástico e sua utilidade é praticamente supérflua (salvo as devidas exceções, como o uso por pessoas com deficiência ou qualquer tipo de dificuldade), mas esse é apenas o começo da história. De nada adianta fazer campanha online contra o canudo se, pelo menos, a pessoa não faz uma coleta seletiva no mundo real.

“A proibição do canudo não vai diminuir a poluição” garante o biólogo. “O que diminui é cada um fazer a sua parte”.

Após reabilitação, o Gremar faz a soltura dos animais

Apesar de parecer simples, muita gente ainda não compreende onde estão as ações mais efetivas. Nesse caso, precisamos ter uma atenção especial não apenas para as medidas de gestão de resíduos, como a reciclagem, mas focar principalmente no começo dessa cadeia, ou seja, reduzir o consumo.

“Na hora de comprar a gente precisa pensar ‘será que eu preciso mesmo dessa embalagem?’, procurar por opções em embalagens retornáveis”, pontua Thiago. “Se a gente começar a pensar assim e pressionar, as marcas vão ter que se adequar”.

Parece fácil falar, mas quando estamos no corredor do mercado, os produtos sustentáveis ou com política de logística reversa são mais caros, por conta dos custos que as empresas precisam assumir. Com o bolso apertado, muitas vezes optamos pela lógica econômica achando que estamos pagando barato. Ledo engano. A conta está cada vez mais cara. 

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RESTOS DE PNEU DESCARTADO DE FORMA INADEQUADA CAUSAM MORTE DE ATOBÁ . Na última semana, em ação diária do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS), um dos técnicos de campo do Instituto Gremar encontrou um atobá pardo (Sula leucogaster) já sem vida na praia de Guaratuba, em Bertioga (SP). . Como rege o protocolo, o animal foi encaminhado para a Centro de Reabilitação do Gremar no Guarujá, para que os veterinários responsáveis realizassem o procedimento de necropsia. Os resultados obtidos são utilizados em pesquisas e na definição de estratégias de educação ambiental. . Durante o exame, lamentavelmente, foi detectado um pedaço de borracha com cerca de 37cm em seu esôfago. Eram restos de um pneu descartado inadequadamente que, uma vez no mar, acabaram ingeridos e provocando a morte da ave. . Levados pelas marés, a borracha e outros materiais como plásticos, vidros e papeis causam cenas lamentáveis como essa com relativa frequência. . Faça a sua parte e procure conscientizar amigos e familiares. Seja atuante em sua comunidade e junte-se ao Gremar e demais instituições ambientais nas próximas ações de mobilização. Só assim poderemos amenizar esta triste estatística. . O Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS) foi desenvolvido para o atendimento de condicionante do licenciamento ambiental federal das atividades da Petrobras de produção e escoamento de petróleo e gás natural no Polo Pré-Sal da Bacia de Santos, conduzido pelo Ibama. . Seu objetivo é avaliar os possíveis impactos das atividades de produção e escoamento de petróleo sobre as aves, tartarugas e mamíferos marinhos, através do monitoramento das praias e do atendimento veterinário aos animais vivos e necropsia dos animais encontrados mortos. . O Gremar é uma das instituições que integram o projeto em sua chamada Fase 1. Possui base em funcionamento no Guarujá, podendo ser contatado pelo telefone 0800-642-3341 e 13 99711-4120 (24h).

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