Lacoste e a substituição do crocodilo

Share on facebook
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on email
Share on telegram

Acho que nunca nem entrei numa Lacoste na vida. Que me desculpem os amantes da marca, mas me nego a pagar mais de 300 reais numa camisa polo de luxo — ou o que quer que seja — bordada com um crocodilo minúsculo. Nada contra o crocodilo, coitado. Mas não pagaria nem que fosse uma fauna inteira.

Ano passado, o réptil símbolo da grife francesa de roupas esportivas saiu um pouco de cena e deu espaço a outros animais. O motivo foi a participação da Lacoste no programa de conscientização à preservação das espécies Save Our Species (Salve Nossas Espécies), promovido pela International Union for Conservation of Nature (IUCN).

A marca criou uma edição promocional e limitada de polos, substituindo o tradicional logo por dez tipos de animais ameaçados de extinção. Cada exemplar das 1.775 camisas confeccionadas foi vendido a 185 dólares. Os mais de 328 mil dólares arrecadados com a venda desses produtos foram revertidos a instituições de proteção à vida selvagem no mundo todo.

Por ordem de risco de extinção, as espécies escolhidas para substituir o crocodilo nessa linha exclusiva de camisas foram:

  1. Vaquita (espécie rara de golfinho da Califórnia) – cerca de 30 animais
  2. Tartaruga birmanesa – cerca de 40 animais
  3. Lêmure do norte – cerca de 50 animais
  4. Rinoceronte java da Indonésia – cerca de 67 animais
  5. Macaco cao-vit (típico da fronteira da China com o Vietnã) – cerca de 150 animais
  6. Kakapo (espécie de papagaio da Nova Zelândia) – cerca de 157 animais
  7. Condor da Califórnia – cerca de 231 animais
  8. Saola (espécie de bovino encontrada no Vietnã e Laos) – cerca de 250 animais
  9. Tigre da Sumatra, uma ilha indonésia – cerca de 350 animais
  10. Iguana terrestre de Anegada, uma ilha virgem britânica – cerca de 450 animais

Ativismo ambiental e paradoxal

Faixa estendida em varal sobre rio nas Filipinas diz "Desintoxique nossas águas, corte os produtos químicos"
Ato do Greenpeace em Manila, Filipinas após o lançamento da segunda fase do relatório, em agosto de 2011. Foto: Alanah Torralba / Greenpeace

Em 2011, o Greenpeace divulgou um relatório intitulado Dirty Laundry (Roupa Suja), no qual acusou renomadas marcas — como Nike, Adidas, Puma, Calvin Klein, H&M e Lacoste — de contaminar rios chineses com substâncias químicas prejudiciais ao fígado e sistemas endócrino, reprodutivo e hormonal de humanos e animais. Desse jeito, não há bicho que resista mesmo.

Até entendo o porque da “preocupação” dessas grifes caríssimas com o meio ambiente, apesar de discordar dos preços absurdos. Afinal, a indústria têxtil é uma das que mais polui, atrás apenas da indústria petrolífera. É ou não é motivo de consciência pesada?

Independente da marca, toda roupa é feita de algum tipo de tecido. Algodão, poliéster, viscose, linho, seda, entre outros. Mas, figurativamente falando, nosso guarda-roupas abriga basicamente petróleo e substâncias tóxicas.

O poliéster, por exemplo, demanda milhões de barris de petróleo por ano em sua produção e demora mais de 200 anos para se decompor. Assim como a produção da viscose, que derruba milhões de árvores todos os anos. O algodão, por sua vez, é o que mais usa substâncias tóxicas (inseticidas e pesticidas) em seu cultivo.

Então, talvez seja errado da minha parte julgar o preço pelo valor da etiqueta. O fato é que, como já deu para perceber, moda custa muito mais caro do que a gente imagina. E, infelizmente, nenhum bordado será suficiente para reparar os danos causados ao planeta por esse setor.

Mas nós também temos uma parcela de culpa em tudo isso. Enquanto nos deixarmos seduzir pela cultura da fast fashion — que se resume aos exageros no consumo e a comprar tendências passageiras — propagada pela mídia e redes sociais, esse ciclo nunca terá fim.

É preciso diminuir o consumo, antes que a Lacoste precise abandonar de vez o pobre crocodilo, sacrificando seu lucro novamente para “salvar” o mundo por você e por mim.

Tags

sobre o autor