Botsuana derruba lei que impede a caça de elefantes

Share on facebook
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on email
Share on telegram

Eu li em algum lugar que os direitos são penosamente conquistados. Quando não podemos lutar nós mesmos ou não temos apoios suficientemente fortes, é mais fácil perdê-los do que obter novos. E foi isso o que acabou de acontecer com os elefantes de Botsuana. Ontem, dia 22 de maio, o governo do país africano anunciou a liberação da caça de elefantes, revertendo a proibição que existia desde 2014.

O país tem a maior concentração de elefantes do mundo. Em números absolutos, são 135 mil exemplares que vivem na região. O que poderia ser considerado uma verdadeira riqueza natural, tem gerado muitas discussões e conflitos entre humanos e elefantes.

As justificativas para a liberação da caça são muitas, como por exemplo, a invasão de elefantes em terras de plantio e o aumento de predadores que prejudica a criação de gado. O governo também alega que a proibição, instaurada pela gestão anterior, teve um impacto negativo nas comunidades que viviam da caça. Segundo nota emitida pelo governo ontem à noite, a liberação foi tomada após debate com autoridades locais, ONGs, empresas de turismo, pesquisadores e conservacionistas, entre outros. As ONGs ainda não manifestaram sobre o assunto.

O efeito desta medida pode ser ainda mais devastador já que Zimbábue e Namíbia, países vizinhos, estão pressionando a entidade responsável pelo tratado de comércio ilegal internacional (CITES) para que possam derrubar o veto também.

Verdadeiro ouro branco

A caça ilegal de elefantes acontece principalmente por conta do marfim de suas presas que, de tão valioso, é conhecido como ouro branco. Ele é uma matéria-prima para a produção de diversos objetos, de anéis aos mais variados itens de decoração, e é muito apreciado pelas classes mais nobres, principalmente no oriente. Para se ter uma noção, apenas um quilo do material pode valer milhares de dólares no mercado negro, razão mais do que suficiente para que o tráfico e a caça ilegal desses animais se transforme em uma atividade para lá de atraente.

Segundo um estudo publicado pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, em agosto de 2014, a caça ilegal de elefantes africanos fez com que a população do mamífero no continente atingisse um ponto de inflexão, ou seja, por ano, mais animais são mortos do que estão nascendo. Entre os anos de 2010 e 2014, aproximadamente 35 mil elefantes foram mortos, fazendo com que a África perca em média 7% da sua população total a cada 12 meses. Se a caça for liberada, pode ser que em 15 anos não existam mais elefantes africanos.

Quem compra?

A situação é tão violenta aos animais que muitas vezes a gente fica pensando se alguém tem coragem de comprar um produto com uma origem dessas. Pois é, mas tem. Por uma questão cultural, o marfim é muito apreciado em países asiáticos, sobretudo na China, maior responsável pelo entalhe e comércio de objetos à base do material.  

Um dos motivos dessa valorização é a desinformação dos cidadãos chineses quanto à origem. Grande parte da população acredita que o marfim cai naturalmente dos animais, ou é obtido após a morte natural. Uma hipótese bem mais fofa e distante da realidade. Cerca de 90% do material consumido pelo país é fruto da caça ilegal e os vendedores abastecem seus estoques com documentos forjados.

Em janeiro de 2018, o marfim foi proibido na China, atendendo à pressão de ONGs e da comunidade internacional. Mas a liberação da caça nos países de origem podem fortalecer o mercado negro chinês, ou pior, até derrubar essa proibição.

Quando eu escrevi o texto sobre documentários de natureza no Netflix, eu assisti O Extermínio do Marfim, que mostra como funciona a caça ilegal da morte às lojas. Então mesmo nunca tendo conhecido um elefante na vida, essa notícia da liberação foi um soco no estômago. Como o ser humano pode ter inteligência e desenvolvimento superiores e não encontrar uma solução que permita que outras espécies sobrevivam em paz?

Foto: Diego Delso / delso.photo / Wikimedia Commons

Tags

sobre o autor