Como plantar uma árvore em São Paulo

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Nós precisamos plantar mais árvores. Se você mora em uma cidade grande, provavelmente sabe e concorda com os benefícios dessa afirmação. Na verdade, nem sempre a conscientização é o maior obstáculo, mas sim como colocar esse discurso em prática vivendo em um apartamento de 60 metros quadrados, onde até as suculentas têm dificuldade de sobreviver, no coração da maior cidade do país.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o mínimo recomendado é que uma cidade tenha 12 metros quadrados de área verde por habitante, o que daria aproximadamente três árvores para cada um de nós. Sabe o que é mais surpreendente? É que, segundo os dados da Secretaria do Verde e Meio Ambiente (SVMA) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), desde 2009 São Paulo superou a meta. Em 2017, por exemplo, haviam 194.138.890 metros quadrados verdes para 11.696.088 habitantes, o equivalente a 16,5 metros quadrados por pessoa.

O problema das estatísticas é que elas nem sempre correspondem à verdade dos fatos. Essas áreas verdes existem, mas isso não significa que a distribuição seja adequada. Muitas regiões de preservação ambiental acabam inflando esse número, mas estão distantes da realidade urbana. Dentro da cidade, bairros mais populosos, como Vila Prudente ou Cidade Ademar, acabam não “compensando” em número de árvores. Esse é só um dos motivos para tomar uma atitude e colocar a mão na terra.

O caminho para plantar uma árvore

Antes de sair com a pá nas costas fazendo buracos na calçada, é preciso compreender as diretrizes para essa atividade. Plantar uma árvore em um espaço urbano pode ser bem complexo e burocrático. O primeiro passo é ver o que a prefeitura oferece nesse sentido.

Por meio da Campanha Permanente de Incentivo à Arborização, podemos receber mudas gratuitas produzidas pelos Viveiros Municipais. Para isso, tem que comprovar a disponibilidade de área de plantio, mas a autorização só é concedida após a análise de peritos da Divisão Técnica de Produção e Arborização, que levam em conta a metragem, espécies adequadas, o fluxo da via, entre outros aspectos. Feito isso, basta apresentar os documentos necessários (IPTU e documento com foto) e fazer a solicitação. Para retirar a muda, é preciso levar um carro com caçamba, já que boa parte delas têm mais de dois metros de altura.

“Mas para quê eu passaria por tudo isso, se posso pegar uma muda e plantar aqui na praça da rua?”. Entendo que sua intenção até seja das melhores, mas não é assim que as coisas funcionam. Plantar uma árvore em um ambiente urbano exige tantas responsabilidades que a própria SVMA disponibiliza um Manual Técnico de Arborização Urbana.

O material, que tem mais de 120 páginas, traz todas as questões relevantes ao plantio, desde normas para sobrevivência das espécies (como a profundidade de cada buraco, tipo de raiz, entre outros) até critérios técnicos de urbanização. Definir a arquitetura da copa da árvore para um plantio em uma rua residencial  é bem diferente do que escolher uma espécie para uma avenida que trafegue ônibus, por exemplo. Isso sem falar no posicionamento da fiação elétrica, que deve ser analisado na hora de escolher a espécie. No caso de opções frutíferas, avalia-se também a possibilidade de danos aos pedestres ou veículos devido à queda dos frutos.

Diante de tantas questões complicadas. Será que nós, simples munícipes, podemos plantar uma árvore na cidade? A resposta é: SIM.

Projeto Novas Árvores Por Aí

Foram essas as diretrizes que o publicitário Nik Sabbey seguia quando resolveu plantar suas primeiras mudas na calçada. Descontente com a realidade ambiental do bairro Vila Yara, na Zona Oeste, Nik começou a plantar discretamente algumas espécies em canteiros e praças da região.

“A partir disso, criei uma página nas redes sociais para tentar descobrir quem fazia a mesma coisa e promover esse hábito de interferir na arborização urbana”, relembra o publicitário. “Aos poucos, a página foi crescendo. As pessoas queriam participar e extravasar esse incômodo. Descobri que existiam plantios coletivos e resolvi trazer essa ideia para São Paulo”.

Hoje, a página Novas Árvores Por Aí tem mais de 19 mil seguidores e uma agenda repleta de plantios e manutenções pela cidade. A iniciativa cresceu tanto que foi impossível conciliar o trabalho e, em 2016, Nik passou a se dedicar somente ao projeto. Com a prática e conhecimento das diretrizes, plantar em São Paulo foi ficando cada vez mais fácil.

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??? Verde não era, verde ficou! Plantemos

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“A gente fez o caminho por meio da Secretaria do Verde e Meio Ambiente. Apresentamos o projeto e conversamos com os donos da calçada. Na maioria dos casos, a própria Secretaria faz o meio de campo com as subprefeituras”, explica o fundador do projeto. “É sempre bom estar alinhado com todo mundo”.

O sucesso do Novas Árvores Por Aí já extrapolou as divisas. Em parceria com o Verdejando, iniciativa da Rede Globo, Nik já mexeu na terra até de cidades vizinhas, como Carapicuíba, Osasco, Taboão da Serra e Mauá.

Como participar do projeto?

A organização dos plantios coletivos continua sendo via redes sociais. Nesse quesito, os eventos no Facebook são a melhor maneira de se manter informado. Para isso, o ideal é curtir e interagir na página para receber o maior número de informações.

“Todos são bem-vindos. Desde o cara que nunca plantou, não conhece nada, até aquela pessoa que já tem sua própria pá”, esclarece Nik. “Com o tempo, se você quiser ir aprofundando o seu relacionamento com o movimento, pode comprar suas ferramentas, levar algumas mudas ou até fazer um lanchinho para o pessoal”.

Participar dos plantios é uma ótima forma de interferir na realidade urbana com responsabilidade e ainda conhecer gente nova. Para isso, basta chegar no dia e horário combinados e se apresentar aos organizadores. Não se esqueça que é um trabalho pesado e que alguns cuidados são necessários, como usar um sapato fechado, calça e, se possível, levar uma luva para não machucar as mãos.

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Noix cavuca mas não breca ??????????? Verdejando 2018

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Assim como uma árvore, a iniciativa tem crescido e se ramificado com o tempo. Hoje, já existem grupos paralelos que nasceram da mesma “semente”.

“Normalmente, a gente tenta colocar as mudas no caminho de alguém para facilitar a manutenção”, descreve o fundador. “Mas uma vez nós fizemos um plantio no Parque da Juventude (Zona Norte) e acabou gerando um grupo de pessoas formado por moradores da região. Eles mesmos organizam as manutenções”.

“Todo mundo quer parar na sombra, mas ninguém quer plantar uma árvore”.

Nik Sabbey

Para Nik, um dos grandes problemas enfrentados é justamente essa cultura urbana de combate às árvores. Muitas vezes, elas são alvos de críticas pela sujeira das folhas, entupimento de calhas, entre outras reclamações. Para lidar com essa questão, existe uma estratégia que pode trazer bons frutos com o tempo: investir nas próximas gerações.

“As crianças adoram participar dos plantios. Elas têm menos bloqueios, gostam de voltar para ver, acompanhar o crescimento”, relata o organizador. “Quando elas voltam e a árvore morreu por algum motivo, não deixa de ser uma importante lição. É hora de compreender o ciclo, entender porque isso aconteceu. É rico do mesmo jeito”.

Colocar os mais jovens em contato com a terra pode parecer uma atitude simples, mas é uma contribuição profunda ao desenvolvimento dessa geração que vive tão conectada.

“Na rua Medeiros de Albuquerque (Zona Oeste), dois meninos vieram participar do plantio e, naquele dia, eu tinha trazido uma picareta. Quando um começou a cavar, eu ouvi o comentário ‘mãe, isso é como jogar Minecraft, só que de verdade’”, ri Nik. “Tiramos o menino do videogame pelo menos por uma manhã”.

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