Sobrevivendo à Pedra do Baú

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“Ué, tá tão quieto… Que foi? Perdeu a voz?”. Foi assim que o guia me despertou de um transe introspectivo. O espanto era mais do que justificável, fazia 20 minutos que tínhamos começado a escalada e eu, que sou matraca, estava completamente calado. Até pensei em responder às provocações do espertinho, mas não saía nada. Meu corpo inteiro estava focado num único objetivo: chegar ao topo da Pedra do Baú.

Mas antes de entrar nesses detalhes, vou falar um pouquinho sobre esse ponto turístico. Se você já foi para Campos do Jordão, provavelmente já viu as indicações da Pedra do Baú naquelas placas de atrações turísticas (com o fundo marrom). O local fica a 24km da cidade mais famosa do inverno paulista, em um município bem menor e mais discreto, a Estância Climática de São Bento do Sapucaí.

Com pouco mais de 10 mil habitantes, São Bento vive quase que à sombra da principal atração turística da região. Qualquer estabelecimento — restaurantes, hotéis, cabeleireiros e até as farmácias — tem, pelo menos, uma foto da Pedra. Para qualquer lugar que se olhe, lá está ela, de olho em cada movimento e esperando a nossa visita.

A famosa Pedra do Baú

Ela fica na Serra da Mantiqueira e faz parte de um conjunto de rochas gnáissicas (nada como ter um guia nessa vida), formado também pelos cumes Bauzinho e Ana Chata. Eles são interligadas por trilhas. Se você, assim como eu, curte uma aventura completa, com direito a trekking, escaladas e rapel, o visual é único e vale muito a pena. E deixa eu te contar um pouco mais sobre a estrela deste texto…

A Pedra do Baú recebe esse nome por conta do seu formato. (FOTO:
NANCY AYUMI KUNIHIRO )

Por que baú? É que os primeiros a se aventurarem na subida acharam que ela parecia um baú vista de longe, por causa do formato retangular. Pensa em um povo ocupado que a 1950 metros de altitude ainda tem a tempo de ficar batizando pedra.

A partir de 1940, algum gênio teve a brilhante ideia de instalar estruturas de ferro na pedra para facilitar a escalada. Graças a São Bento do Sapucaí! Sem essas vias ferratas, como elas são chamadas, quem estaria “ferrato” era eu.

Por conta de um deslizamento, agora só se pode ter acesso pela face norte dela. Então, para chegar lá, tive que fazer uma das trilhas da região (a distância varia de acordo com o local que você estaciona). Por isso, não se esqueça de levar bastante água.

Quando chegamos e vi as escadinhas de ferro, entendi melhor o “rolê”. Um dos guias mencionou algumas informações relevantes como, por exemplo, que são mais de 600 degraus e que, em alguns pontos, a inclinação é negativa. Mas são apenas detalhes para ajudar a entrar no clima. Na verdade, esse começo é a parte mais fácil do passeio. Eu estava até com aquela dose extra de coragem, sabe?

A partir de 2019, não é mais permitido subir a Pedra do Baú sem equipamentos de segurança. Antes de subir, é preciso alugar o material completo, que inclui capacete, mosquetão e cadeirinha. Se você, assim como eu, não tem muita intimidade com esse tipo de aventura, recomendo também contar com um guia credenciado para fazer o passeio. Assim, ele fica responsável por clipar a corda nos degraus e você só precisa se concentrar em sobreviver, o que já é muita responsabilidade.

Ah, a subida!

Depois que eu fui devidamente amarrado nos equipamentos, estava na hora de começar. Como a inclinação é muito baixa no começo, fiquei numa posição desconfortável e em exposição pública para a fila de pessoas que subiram depois de mim. Minha falta de prática também atrapalhou e fez com que a corda prendesse nos primeiros degraus. Mas em pouco tempo já me sentia um alpinista profissional.

Uma posição um tanto ingrata para quem sobe e para quem assiste

Ok, nem tanto. A brincadeira vai ficando mais inclinada e, num piscar de olhos, já estava a muitos metros acima do chão. Algumas pessoas recomendam que você olhe apenas para cima e se concentre nas escadas. Mentira! Quanto mais eu subia, mais dava vontade de olhar para baixo. Nessa hora, na minha cabeça, vieram vários pensamentos positivos de “se eu cair daqui, será que eu morro?”.

Busquei me concentrar e afastei os pensamentos para seguir firme no meu propósito. Tinha certeza de que nada me pararia naquele instante, até aparecer um grupo descendo. Como o lado sul está fechado, a descida tem que ser feita pelo mesmo caminho. E sabe o que isso significa? Que eu tive de encontrar um local pra ficar até liberarem o acesso às escadas. Para evitar essa situação, que às vezes é bem complicada, os guias recomendam subir num horário de pouco movimento. Isso vai diminuir o número de paradas para esperar a passagem de grupos. Assim que eles passaram, retomei o caminho.

Sim, existem alguns platôs no meio do trajeto. São lugares ideais para você recuperar o fôlego e ficar calculando o quanto ainda falta. Segundo os guias, há um ponto específico, mais ou menos na metade do caminho, que é o lugar onde ocorre o maior número de desistências, quando a pessoa percebe o quê ainda está por vir. Existem poucas fotos do local. Parece que, quando você está pendurado num degrau de ferro, a tantos metros do solo, ninguém se lembra de tirar uma selfie.

Pensar em desistir?

Pode parecer mentira, mas eu passei pela “parada dos medrosos” sem nem me importar muito. Em nenhum momento pensei em desistir. Na verdade, em nenhum momento eu pensei em algo. Minha cabeça continuava firme e forte, calculando as múltiplas possibilidades de óbito com um “nossa, agora é certeza que eu morro!”. Nem me dei ao trabalho de pensar se continuaria ou não. Era como se fosse um mantra, um tanto mórbido, mas mesmo assim um mantra.

Quando você pensa que a inclinação não pode ficar mais difícil, ela te surpreende e passa dos 90°. Mas isso quer dizer que você chegou. Sim, depois de uma longa subida, eu estava no topo da Pedra do Baú. Bateu uma sensação de orgulho, tanto físico quanto emocional. Parecia que o mundo era pequeno para toda a minha coragem e força, e que eu faria coisas incríveis dali pra frente. Mas antes de revolucionar minha vida e me gabar da minha superação, achei melhor deitar, desfalecido, para me recuperar.

Admito, se ali tivesse um rapel, tirolesa, voo livre, eu topava na mesma hora. Tudo para não ter que encarar a maldita via ferrata novamente. Mas não deu outra, lá fui eu de novo. Como já era razoavelmente tarde, nem pude ficar muito lá em cima. Na verdade, o ideal é subir até as 14h, por uma questão de segurança. Imagina se começa uma chuva de fim de tarde e você ainda precisa descer pelos degraus?

Mas, para minha agradável surpresa, a descida foi muito mais tranquila que a subida. Dois motivos contribuíram para isso: primeiro, eu já tinha uma noção do caminho inteiro e sabia exatamente como seria, isso é bem mais tranquilizador. Segundo, o esforço físico da descida é bem menor. Ah, nada como a gravidade…

Chegada da via ferrata ao topo da Pedra do Baú: o mesmo caminho da volta (FOTO: NANCY AYUMI KUNIHIRO)

De repente, toda a minha animação despencou do precipício. No meio da descida, subia um outro grupo de aventureiros com quatro crianças. Sim, crianças entre nove e 12 anos, subindo a Pedra do Baú em um horário que nem o guia recomenda. Todo o orgulho do meu feito ficou para trás. Mas, pelo menos, vi com meus próprios olhos que é possível fazer o passeio com crianças. Na verdade, se elas forem bem dispostas para esse tipo de aventura, deve ser uma experiência inesquecível nessa idade. Com certeza, isso deve ter virado até redação escolar. Então, se você tem filhos, considere oferecer um dia como esse.

Valeu a pena?  

Ao voltar para o chão e tirar todo o equipamento, a tensão sumiu definitivamente e deu lugar a um sentimento de conquista único, que nenhuma criança conseguiria tirar de mim. Todo mundo precisa conquistar a Pedra do Baú. Tanto que insinuei que até minha mãe, com o joelho “podre”, deveria tentar.

Pode parecer clichê, mas a jornada é definitivamente a melhor parte. A graça é justamente esse exercício de manter a mente focada para não sucumbir à tensão, ao mesmo tempo em que você controla o desgaste físico para chegar até o fim. É uma trajetória de autoconhecimento intensa.

Claro que, quem está acostumado a fazer escaladas, vai enxergar aquela via ferrata como um passeio fácil e sem graça. Mas, para quem vive uma vida de escritório, em que a única aventura é pegar o elevador antes que ele feche, vale muito a pena. No final, somos invadidos por uma energia de êxito misturada aquele sentimento de “sim, nós podemos”, que parece até a campanha presidencial do Obama. Depois da aventura, nada melhor do que voltar à cidade para comer alguma coisa e admirar de longe a Pedra do Baú, com a certeza de que eu a venci.

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