O antes e depois da Pedra do Índio

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Sempre defendi a profissionalização do turismo nacional. Nada mais decepcionante que encontrar pontos turísticos frágeis e artificiais que recebem multidões, enquanto outros destinos incríveis no Brasil sofrem com o descaso, a falta de infraestrutura e recebem visitas minguadas.

Costumo me perguntar o que aconteceria se levássemos nosso potencial turístico a sério. E, para minha surpresa, encontrei parte dessa resposta em um lugar bem interessante: a Pedra do Índio, em Botucatu.

Botucatu fica na porção oeste de São Paulo. Junto com os municípios de Bofete e Pardinho, a região é conhecida como Pólo Cuesta, em homenagem ao relevo característico que rende belas paisagens e aventuras. Uma das mais populares é o mirante da Pedra do Índio.

Como era em 2017

A primeira vez que visitei o local foi num fim de tarde em agosto de 2017. Para chegar lá, precisei colocar o ponto no GPS. Para ter certeza, também fui perguntando aos transeuntes no caminho, já que a estrada de terra parecia não acabar nunca e a sinalização era rara. Eu precisava chegar a uma fazenda simples, onde uma família cobrava cinco reais para entrar e conhecer o mirante.

Após alguns minutos, consegui achar a fazenda e comprar meu ingresso. A partir daí, segui uma trilha pelo meio do pasto (e do gado) que me levaria ao tal mirante. A expectativa era desfrutar de uma das melhores vistas panorâmicas da Cuesta. Lá em cima, os destaques seriam as Três Pedras, localizadas em Bofete.

Quando a trilha acabou, percebi que o mirante não tinha nenhuma estrutura. Os visitantes sentavam nas pedras, muitos na beirada do paredão, para fazer as fotos e curtir o momento.

Como não havia nenhuma criança comigo, nem me preocupei com tanto com a segurança. Aproveitei o fim do dia pensando que aquele era um passeio rústico e barato, e que dificilmente a seria diferente daquilo. Valeu a pena? Sim. Para mim foi o suficiente, sem reflexões profundas.

Reforma na Pedra do Índio

Um ano depois dessa visita, ouvi dizer que decidiram reformar o mirante. Segundo um morador da região, o ponto turístico ganhou um deck de madeira para o pessoal apreciar a vista com mais segurança. Pensei “poxa, vamos perder a sensação de adrenalina e contato direto com a natureza ao sentarmos nas pedras. Será que é uma boa ideia?”.

Eis que, em março de 2019, tive a oportunidade de voltar à Cuesta e resolvi conferir que fim tinha levado essa história de reforma. Logo cedo, peguei a mesma estrada de terra e parti para a Pedra do Índio.

No caminho, percebi uma boa mudança: placas de sinalização! Ok, não eram muitos grandes, mas finalmente elas existiam. Para quem não conhece o trajeto, já é um grande alívio.

Mas a verdadeira surpresa eu vi assim que cheguei ao local. A casinha continuava lá, só que já não estava mais tão rústica. O lugar tinha ganhado um playground para crianças e uma lanchonete. Ou seja, além de conhecer a belíssima vista da região, dava para tomar um saboroso café enquanto as crianças se divertiam.

Para conhecer o mirante, agora é preciso pagar um ingresso de dez reais por pessoa no caixa da lanchonete. Mas o acesso mudou completamente… Em vez de passar pela porteira e cruzar o pasto, os turistas precisam passar por uma catraca e seguir um caminho de terra batida, totalmente cercado. A caminhada ficou bem mais tranquila que a de antes.

Mesmo com todas as transformações, o destaque ainda é o mirante. O deck de madeira presenteou os turistas com uma vista ainda maior da região, sem correr nenhum tipo de risco. Em um dos trechos, as madeiras do piso foram substituídas por um vidro. Através dele, os mais corajosos podem ver a altura do paredão. Como o lugar está bem mais espaçoso e confortável, tem sido usado até para ensaios fotográficos. Quando cheguei, cruzei com uma excursão de alunos da região. Para eles, o deck tinha virado sala de aula. E não existe mesmo jeito melhor de aprender sobre o relevo da região do que na própria Cuesta.

No caminho de volta, uma placa indicava a entrada das trilhas recém-inauguradas. Além de conferir o mirante, agora podemos nos aventurar e conhecer de perto um pouco da vegetação local. São diversas opções de caminho, todas muito bem sinalizadas. Nos trechos mais íngremes, foram instalados corrimãos de cordas para auxiliar a caminhada.

Na trilha, é possível conhecermos duas grutas, Jaguaquara e Itapitanga. O legal é que dá para ver de perto os paredões rochosos e espiar mais dois mirantes: Itaguaçu e Apoena. Esse último, inclusive, é um dos pontos mais altos do sítio. O trajeto é de dificuldade moderada e passa por uma área de transição entre a Mata Atlântica e o cerrado.

No fim do passeio, eu estava encantado. Fiquei muito feliz em ver que a Pedra do Índio tinha se transformado num verdadeiro complexo de ecoturismo, super estruturado.

Como é bom ver um lugar que leva a sério nosso potencial turístico e procura oferecer um serviço de qualidade aos visitantes. No entanto, ao acessar a página oficial da Pedra do Índio de Botucatu, li algo inesperado. Muitos seguidores reclamavam do preço do ingresso, que foi de cinco reais para dez. Alguns diziam que a inflação do período não justificava tal aumento.

Fico imaginando como deve ser difícil trabalhar com turismo no Brasil. Construíram uma lanchonete, cerca, montaram de um deck requintado, abriram mais trilhas, sinalizaram o caminho e fizeram todo um paisagismo para atender os turistas com mais qualidade e conforto.

Ao meu ver, o acréscimo de cinco reais no ingresso é irrisório perto de tantas melhorias. Mas, infelizmente, uma parcela da população não enxerga o valor agregado que esse montante trouxe ao local. Como podemos cobrar a profissionalização do turismo e a otimização dos serviços oferecidos se os próprios turistas fazem uma “campanha” contra isso?

É preciso pensar nos benefícios oferecidos, e não em um número isolado. Nesse quesito, a administração da Pedra do Índio está de parabéns. Espero que continuem valorizando essa beleza natural paulista.

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