Fechado e sem previsões, Parque da Mina em Araçariguama fica no passado

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Não temos respeito pela nossa história. Digo isso assim, seco e objetivo. O incêndio no Museu Nacional, em 2018, ou o fechamento do Museu do Ipiranga, em 2013, por problemas estruturais, são apenas dois exemplos recentes de como damos as costas para o passado. Se mesmo dois ícones como estes passam por essas situações, já parou para imaginar quantos lugares menos conhecidos e com imenso valor histórico sofrem com o descaso? É o caso da Mina do Ouro de Araçariguama.

Não, você não leu errado. Quem conhece pouco da região deve ficar surpreso ao descobrir a existência de uma mina de ouro em plena Araçariguama, cidade que fica aproximadamente 50 km da capital. Mas a jazida não só é real como importante na história do Brasil.

Para entender melhor esse assunto, preciso falar um pouco mais do passado. As regiões próximas às margens do Rio Tietê sempre foram importantes rotas para os desbravadores e bandeirantes desde o descobrimento. Foi justamente um deles, o sertanista Afonso Sardinha, que descobriu, em 1590, uma das primeiras minas de ouro do Brasil justamente ali, em Araçariguama.

A mina manteve intensa atividade extrativista até o século XIX, chegando a produzir mais de 40 kg de ouro por mês. Como a fiscalização deficiente permitia o desvio ilegal do minério, além dos constantes riscos de desabamento, o governo Getúlio Vargas decidiu lacrar o local e proibir a exploração em 1934.

Um novo tesouro

Se o brilho do ouro não era mais visto por ali, o lugar passou a guardar um novo tesouro: um valioso pedaço da história. Além do túnel aberto para mineração, o local também abrigava a Capela de Santa Bárbara, construída em 1605 e uma casa de apoio dos trabalhadores erguida ainda pelos bandeirantes.

Em 1985, a região do Morro do Voturuna foi tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT) e abriu caminho para a construção do Parque da Mina. Além de um trecho da trilha de exploração, os visitantes podiam conhecer a capela e o museu (construído na antiga casa dos bandeirantes), além de aproveitar a área de piquenique, alameda das palmeiras e parquinho.

Com seu imenso valor histórico, o parque se transformou em uma verdadeira sala de aula ao ar livre. Para quem estuda a Inconfidência Mineira e o período da exploração do ouro no Brasil, conhecer a mina é a oportunidade para ver de perto o funcionamento e ambientação de exploração de minérios naquele período. Uma alternativa muito mais acessível do que viajar até Minas Gerais.

Ou melhor, seria uma alternativa se realmente estivesse funcionando.

Nem tudo que reluz é ouro

Quando peguei a estrada para Araçariguama, já tinha lido em alguns lugares que a mina estava fechada para visitação, mas eram informações desencontradas de outros visitantes. Achei que valia a pena conferir, até porque, existiam outras coisas lá para serem vistas.

Antes mesmo de chegar, percebi que a situação não era promissora. A estrada de acesso não é pavimentada e uma valeta de personalidade trata de dificultar a chegada de um carro utilitário comum.

Mas a pior impressão aconteceu mesmo ao chegar até o parque. Apesar de o local não estar fechado, dá claros sinais de abandono. A alameda de palmeiras, que era tão bonita nas fotos, foi tomada pelo mato alto e virou o melhor ponto imobiliário para as aranhas. A capela estava trancada e, no lugar da mina, apenas um barranco de terra remexida.

O Museu da Mina, por sua vez, está aberto e bem cuidado. Tanto que havia uma funcionária da prefeitura fazendo a limpeza dos vidros com toda a paciência do mundo. Foi ela que revelou a situação: o parque passa por um período de revitalização e, por isso, não estão mais fazendo a manutenção necessária.

Segundo o projeto, a primeira etapa deve ser a reforma da entrada da mina, e até uma retroescavadeira contratada já começou o serviço. Acontece que a intervenção foi feita no período de chuvas e a terra cedeu, cobrindo totalmente o acesso à mina e ainda inundando a capela histórica de lama.

O passeio, um tanto deprimente depois dessa informação, se resume ao museu que, apesar de bem montado, serve como um suporte para a mina e não como atração principal. Pela mesma funcionária, fiquei sabendo que havia um viveiro de araçás, ave que dá nome à cidade, mas que foi desativado durante uma das antigas administrações. Segundo ela, a mina estava fechada há quatro meses, porém os relatos na internet indicam a interdição desde 2017.

Esta seria a ‘entrada’ de uma das minas mais antigas do Brasil

Só há uma forma de saber exatamente como funciona e quando será liberada: entrar em contato com a Secretaria de Cultura e Turismo de Araçariguama, certo? Bem, não é tão simples. O órgão não soube dizer o que exatamente se passa, apenas que a revitalização vai acontecer em duas etapas. A primeira tem início programado para junho, ou julho, não se sabe ao certo. Segundo ele, o melhor era entrar em contato com o departamento de comunicação. Depois de muitas tentativas sem sucesso, desisti.

O resultado de tudo isso é um misto de tristeza e frustração. Não pela reforma em si, até porque isso faz parte da manutenção, mas pela falta de informação que dificulta saber quando e se essa mina vai ser reaberta ao público. Ter um local como esse e tão acessível, a pouco mais de 50 km de uma grande metrópole, é fundamental para uma população carente de história nacional. De nada adianta encontrar a jazida se não sabemos usufruir de sua riqueza.

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