Caminho do Peabiru: um pouco do Império Inca na região da Cuesta

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A gente sempre ouve aquelas histórias que demoramos para acreditar. Não é para menos. No alto da Cuesta, escutei todas as crenças e lendas da região. Elas variam desde a presença de sacis na barriga do Gigante Adormecido à aparição de óvnis no local. Mas quando disseram que ali era o ponto de passagem de uma estrada do Império Inca, que ligava o Peru ao Oceano Atlântico, já achei demais. Será possível que a Cuesta tem relação até com os Incas?

Só havia uma maneira de descobrir isso. Arrumei minhas malas e embarquei para Cusco, no Peru. Lá, buscaria a origem desse caminho e toda a verdade por trás dele.

Ok, é mentira. Infelizmente, ainda não temos orçamento para isso. Mas, como a curiosidade era grande, fiz uma série de pesquisas na internet. Queria descobrir tudo sobre essa estrada chamada Caminho do Peabiru.  

Uma estrada transcontinental pré-colombiana

É preciso muito cuidado para falar sobre esse assunto, porque os dados são esparsos. Na verdade, esse caminho é uma malha de estradas transcontinentais espalhadas pela América do Sul. Elas eram utilizadas principalmente para comunicação e comércio entre as tribos (escambo, na maioria dos casos). Nesse contexto, vamos nos referir ao Caminho do Peabiru apenas como um trecho dessa malha. São aproximadamente três mil quilômetros de extensão, que cruzam Peru, Bolívia, Paraguai e Brasil, ligando o Oceano Atlântico ao Pacífico.

Chamar de “estrada Inca” também pode não ser a denominação mais correta. O que se sabe é que os Incas foram usuários assíduos do trajeto, assim como outros povos e até tribos brasileiras. Porém, não há nenhuma evidência de que a construção foi realizada pelo Império de Cusco. As datas apontam justamente o contrário.

Segundo os arqueólogos, as estradas foram construídas por volta de 1300. Ou seja, a construção ocorreu antes mesmo do fortalecimento e expansão do Império Inca, resultado do reinado de Pachakuti, em meados do século XV. No entanto, como existem tantas dúvidas sobre sua origem, os Incas acabaram levando a fama em uma explicação simplificada. Não vamos nos ofender por isso.

Voltando a falar da trilha, o próprio Caminho do Peabiru aqui no Brasil apresentava diversas ramificações. Seu ramal principal tinha dois trajetos secundários: um saindo de Florianópolis, litoral catarinense, outro de São Vicente, litoral paulista. As duas estradas se encontravam na região de planalto do Paraná. De lá, seguiam trajeto para os países vizinhos, passando por um trecho do Mato Grosso do Sul.

O trecho com destino à São Vicente cruzava o interior de São Paulo. O caminho seguia pelas regiões atuais de Sorocaba, Avaré e, claro, Botucatu e a Cuesta. Sim, eles estavam falando a verdade.

Há quem diga que um dos ramais passava até por dentro da capital paulista, seguindo a rota conhecida hoje como Avenida Rebouças e Rua da Consolação. Se é real, não sabemos. Mas, numa sexta-feira de garoa, provavelmente seria mais rápido seguir pelo Peabiru que descer a Rebouças até a Ponte Eusébio Matoso.


Itinerário de Ulrich Schmidel com o Caminho de Peabiru em destaque. Adaptado de Maack (2002). Organizado por Ana Paula Colavite

Detalhes da trilha

Digo isso porque o Caminho do Peabiru não era uma trilha qualquer, e sim uma estrada bem construída. Segundo os estudos, ele media entre 0,8 e 1,5 metros de largura, e 40 centímetros de profundidade. Nos trechos mais complicados, como os relevos, era forrado com rochas andesíticas (magmáticas) para facilitar a caminhada. Já o resto do percurso era coberto por uma espécie de gramínea, evitando que arbustos, ervas daninhas e árvores crescessem ali. Essa era a melhor maneira de manter a trilha aberta e impossibilitar a erosão.

É justamente esse cuidado na construção que dá nome à estrada. Peabiru é uma derivação de ta pe a beyuy, que em tupi-guarani significa “caminho forrado”. Esse mesmo trajeto recebeu diversos nomes, de acordo com a região ou povo que o encontrava. Já foi chamado de Caminho da Montanha do Sol, Caminho do Mato, Caminho de São Tomé, entre outros. Mas, admita, Peabiru tem uma sonoridade bem mais interessante (e uma rima questionável).

De tão importante, o Caminho do Peabiru fez parte da nossa história. Foi utilizado primeiro pelos indígenas, depois, pelos jesuítas, e, posteriormente, pelos bandeirantes. Há relatos, inclusive, que a antiga estrada era utilizada para burlar o recolhimento de impostos na época da colonização.

Peabiru hoje

São poucos os vestígios desse magnífico trajeto que sobreviveram ao tempo. Boa parte dele foi destruída pelo desmatamento e outras atividades de extração ainda no período da colonização. Alguns trechos acabaram ficando mais populares e serviram de base para as estradas, como a Rodovia Marechal Rondon.

Existem vários materiais e relatos sobre o caminho. Os manuscritos do alemão Ulrich Schmidel, do século XVI, são as principais descrições históricas do local. Eles foram usados em pesquisas de muitos historiadores, como as do geólogo e explorador alemão Reinhard Maack, na década de 1950. Atualmente, a escritora e jornalista Rosana Bond é uma das maiores referências no assunto e autora do livro “História do Caminho do Peabiru” (2009), Editora Aimber. O conteúdo apresenta o resultado dos 14 anos de pesquisa de Bond.

Se você quer conhecê-lo pessoalmente, uma das rotas do antigo caminho passa pelas Três Pedras, na cidade de Bofete. Basta procurar uma agência para agendar um trekking e conhecer a região. Apesar de o Caminho do Peabiru não estar mais lá, essa é a melhor maneira de saber de sua história.

Ah, e esse é apenas um dos relatos que eu ouvi lá do pessoal da Cuesta. Imagine o quanto ainda temos para descobrir. E então… Vamos fazer as malas?

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